domingo, 19 de dezembro de 2010

CANDOMBLE E HUMANIDADE



Desde o final do mês de outubro, circula entre as diversas mídias a notícia de uma violência ocorrida contra a comunidade do Assentamento Dom Helder Câmara situado no extremo sul do Estado. Confesso que de imediato me reservei a comentar o ocorrido e me mantive numa condição de ouvinte. Como não escutei nada de novo em se tratando de comentários sobre a ação da policia militar, ou sobre questões relacionadas aos orixás, resolvi apresentar algumas considerações. Duas suspeitas dividem a opinião das pessoas sobre o acontecimento do dia 23 de outubro. A primeira é sobre a atrocidade dos policiais e a segunda é sobre a hierofania (“a-presentação”) do orixá Oxossi. Quanto a primeira não temos muito a comentar porque as nossas corporações competem entre si para ver qual a mais cruel, se a mineira, a paulista, a carioca ou a baiana. Isso porque historicamente se estabeleceu uma relação entre poder, autoridade, prestigio e lugar na estratificada pirâmide social das corporações, onde o próprio policial torna-se vítima ao perseguir uma posição que nunca vai chegar e se alcançar jamais ocupara, continuando sendo o executor de ordens que primeiro bate, depois chuta e por fim atira, ou inverte estas ações. Atira, chuta e bate. Não obstante os elementos que estamos comentando, o fato ocorrido no Assentamento Dom Helder Câmara, apresenta cenas já bastante conhecidas por nós ao lado de outras imprevisíveis e até mesmo curiosidades. Como não atentar-se para a presença de um Jesus no assentamento? Obvio que não o nazareno, mas um acusado pela ironia do destino como um dos mais cruéis. Quanto a “cena” montada para demonstrar “força”, esta também é um velho cenário conhecido e fácil de ser montado, ultrapassando o campo das representações de indivíduos concebidos por uma civilização que se fascinou desde cedo pela dor e violência, transformadas em algumas teologias em algo que dignifica, ora purifica, ora eleve a humanidade. A Inquisição, os campos de concentração nazistas e as medidas punitivas foram inspiradas pela mesma motivação e vêem ao longo dos tempo dando fim a populações inteiras através do genocídio e da chacina. Quanto a utilização do formigueiro como prática de tortura, esta já é demasiadamente conhecida, se tratando especificamente da população negra e já foi até mesmo resignificada em algumas imagens como a que aparece no conto do negrinho do pastoreio. Também na história popular do negrinho do pastoreio, a função do formigueiro foi aumentar o castigo. Em algumas versões do negrinho do pastoreio, Nossa Senhora teria vindo em seu socorro. Em Ilhéus, “o abuso da autoridade”, confundida com atos de exorcismo foi interpelado pelo orixá Oxossi. Se não colocamos em dúvida a intervenção divina através dos missionários e ministros cristãos, ou ainda dos santos, anjos, sem falar na suposta presença do Espírito Santo, o que dificulta aceitar a possibilidade dessa intervenção através dos orixás? Talvez o fato de que esta acontece a partir do corpo, da humanidade. Desta maneira, o problema posto no assentamento invadido é de ordem humana. Tenho ouvido constantemente: Mas se esse tipo de manifestação tornar-se algo corriqueiro? Não vamos entrar no mérito dessa questão, embora ache que seria bom se os orixás se fizessem mais presentes entre nós. E será que eles já não estão? Podemos descobrir. Temos que nos ocupar não sobre a experiência religiosa, mas sobre as questões que envolvem a pessoa humana e as relações interpessoais. Não estou bem certo se o que provoca o sensacionalismo da mídia é o fato da pessoa envolvida fazer parte do povo do axé, ou junto a isso, a sua condição de Coordenadora de Educação num Assentamento que historicamente vem se destacando na luta pela implementação e discussão de políticas e ações que envolvem a apropriação da terra no Brasil. Como a sociedade vê as nossas lideranças negras? Os livros de Histórias silenciam sobre Felipa de Alcobaça, Maria Felipa e Zeferina, mulheres guerreiras que como Bernadete defenderam ideiais. Verdade é que a participação das mulheres nos espaços de decisões aumentam cada vez mais. Todavia, as práticas de coerção das mulheres é que continuaram as mesmas. Como nos séculos passados, ainda são julgadas como bruxas, feiticeiras ( vejamos que agora temos uma mãe de santo), são torturadas, tem seus cabelos puxados ( um dos componentes do ritual de exorcismo), seu pescoço pisado, enfim apontadas como “moradas do demônio”. Ainda escrevendo esse texto, sobre o meu ombro, um leitor apressado me perguntou: mas por que Oxossi apareceu? Respondi incisivamente: para superar a humilhação, a violência física, o escárnio, a vergonha, o dano psíquico e por fim para reafirmar que ele ainda continua sendo o dono da terra. Se isso não bastar que fiquemos então com a fala de uma das testemunhas: “Se Oxossi não tivesse lá, ela não ia agüentar”

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O DIA DO SOL NO ILE AXE MAROKETU


O culto ao sol é um dos mais antigos da humanidade. No Egito Antigo o Faraó era a personificação do sol. As culturas ameríndias também para este astro ergueram templos e compuseram cânticos. Em Roma, trazido de culturas antigas, o sol foi reverencia como o Deus Mitra, celebrado no dia 25 de dezembro, posteriormente incorporado pelo Cristianismo que passou a comemorar neste dia o nascimento de Jesus, considerado o “Grande Sol”. Nos cultos afro-brasileiros reorganizados a partir das religiões tradicionais africanas, embora possa aparecer de várias formas, Obaluaitê/Omolu é o sol, uma de suas representações pouco enfatizadas. A antropóloga Claude Lépine realizou uma pesquisa cuidadosa sobre os chamados orixás da terra ou a tríade: Obaluaiyê/Omolu/Nanan. Estes ancestrais agrupam famílias antigas, retratadas pelos objetos de seu culto. São estes ancestrais quem presidem o nascimento dos grãos, assim são eles quem quebram a “dormência das sementes” para que elas germinem. Entende-se por dormência o período entre o momento que elas caem na terra e começam a germinar. Acredita-se que graças ao calor da terra isso é possível. Obaluaiyê/Omolu/ Nanan, acolhe todos e grãos e mantém o ciclo da vida. Este é um dos motivos pelos quais a eles são oferecidos todas as sementes. Com as migrações e ocupações de suas terras, tal culto foi recebendo interferências e aos poucos, os donos da terra foram ganhando novas conotações, a exemplo de uma das que os acompanharam para o Brasil, a bexiga. Doença que mais fragilizou o Continente Africano e outras civilizações. Desta maneira, Obaluaiyê/Omolu/ Nanan, foram evocados por ocasião de pestes e calamidades como médicos(as). O professor Edison Carneiro num de seus trabalhos resume de forma breve a importância desses orixás para os negros, ao referir-se a eles como médicos dos pobres. E Nanan, a vacina, a que cuida, a que ampara, toma conta. Em alguns mitos Nanan aparece como princípio criador do mundo, a terra úmida, ato solene que fazemos para evocar os nossos ancestrais. Sem estes princípios nada acontece, nada se cria, ganha impulso vital. É sob a invocação do sol que Obaluaiyê/Omolu é reverenciado no Terreiro do Bonocô, atualmente conhecido como Ilê Axe Maroketu. O Ilê Axé Maroketu foi fundado em 1943 por Cecília Moreira de Brito após uma trajetória religiosa brilhante como médium espírita. Conhecida como Cecília da Liberdade, nome que fazia referencia ao bairro que ela morava, Cecília aparece descrita pelos pesquisadores que se ocuparam com as religiões de matriz africana na cidade de Salvador nas décadas de 30 e 40 como “uma grande vidente.” Cecília era mulher de poder, comando e prestígio. Era comerciante, abriu comércio com Maria de São Pedro e arrendou da Ordem dos Perdões um terreno de cinco tarefas próximo ao local onde se realizava o culto a um antepassado africano chamado Gunocô. Desde cedo Mãe Cecília estabeleceu relações com o povo de candomblé de seu tempo. Iniciou-se com uma senhora chamada Damiana Oxafalaquê a quem presenteou um terreno em frente à Antiga Fonte Nova, onde atualmente encontra-se uma residência tombada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico. Oxafalaquê era filha de Magebasã, africana, mãe de Martiniano Eliseu do Bonfim. Também ajudaram na solidificação do Terreiro do Bonocô, o Babalorixá Procópio de Ogun, membros da família Bangboxe, especialmente Mãe Caetana, que mantinha com Cecília relações de amizade e Nezinho do Portão, fundador do Terreiro Ibecê Alaketu na cidade de Muritiba. Foi Pai Nezinho quem trouxe o nome Maroketu. Na placa comemorativa aos 60 anos do Terreiro pode-se ler uma placa ditada pelo próprio dono da casa que diz: Foi em 14 de julho de 1941, num dia de terça feira, as cinco horas da manhã o dia que ele chegou. Era dia do solstício, nessa data o Orum, o sol em língua ioruba brilhava mais forte. Em 1943 foi inaugurado o Terreiro, também consagrado ao dono do fogo, Xangô. Era Natal. Durante muitos anos, a festa dedicada a Obaluaiyê/Omolu no Ilê Axe Maroketu foi celebrada no dia de Natal, dia do sol. As mudanças ocorridas na cidade obrigaram a comunidade a antecipá-la. Sucedeu o Ile Axe Maroketu, Iyá Joselina, filha consangüínea de Mãe Cecília. Tia Joselina era de Oxalá e iniciou muitos barcos. Após a sua morte, o axé foi liderado por Archanja Moreira de Brito, Iyá Pastora de Yemanjá, sua irmã consangüínea e atualmente uma das Yás mais lembradas pelos filhos(as) do Ilê Axe Moroketu pela doçura e determinação. Mãe Pastora, preocupada com a salvaguarda de sua tradição, como muitas lideranças religiosas do candomblé baiano, registrou elementos significativos de sua religião em cadernos que hoje constituem um dos maiores legados para o patrimônio cultural afro-brasileiro. Ao falecer, Yia Pastora deixou no comando, a sua filha, Cecília Conceição Moreira Soares, como sua avó, também consagrada aos “donos da terra”. Nos últimos anos, Iyá Cecília com carisma e dinamismo vem imprimindo a sua marca e solidificando o que não se cansa de chamar “tradição Maroketu”. Ela tem contado com o carinho e apoio do Babalorixá Air José, descendente da família Bangboxe, fundador do terreiro Ilê Odô Ogê no bairro da Boca do Rio. Pai Air é filho de Oxoguian e no próximo ano, a sua casa completa cinqüenta anos. Resultado do empenho de Iyá Cecília foi a certificação desta comunidade como Patrimônio do Brasil conforme Decreto 3551 de 4 de agosto de 2000 no ano de 2006 e posteriormente a inclusão do terreiro como patrimônio da cidade de Salvador. O Ilê Axe Maroketu enfrenta problemas semelhantes à maioria das casas de candomblé da cidade de Salvador que lutam para sobreviver à grilagem urbana, à especulação imobiliária, a violência e intolerância religiosa. Junta-se a isso a urbanização que aconteceu na íngreme ladeira na qual está situado o terreiro, realizada entre os anos 70 e 80 que o colocou em risco ao deslocá-lo para abaixo da rua, sem falar da encosta que circunda a roça de candomblé, ameaça constante, que não conta com a sensibilização dos órgãos públicos, mesmo após constantes solicitações de contenção e realização de vistorias. Não obstante estes fatos, a comunidade do Maroketu, continua viva, preservando as suas tradições na ladeira Antônio Viana, que poderia muito bem se chamar Cecília Brito, ou ladeira do sol. No próximo sábado de dezembro, relembrando o dia em que Obaluaiyê/Omolu chegou nesta casa, o Ilê Axe Maroketu abre mais uma vez as suas portas para receber todos aqueles que querem abrigar-se sob o sol, pedindo proteção para as suas vidas.

O CANDOMBLÉ E A FESTA DAS FRUTAS


Há tempos atrás, quando a cidade de Salvador era um pomar, no mês de dezembro por ocasião da festa de nossa Senhora da Conceição da Praia, realizada no dia 8 de dezembro, acontecia a festa das frutas. A festa das frutas ou como se dizia, a festa das frutas do ano (manga, lima, limão, figos e outras) é uma permanência no Novo Mundo de rituais antigos que celebra os ancestrais através do oferecimento dos primeiros frutos da terra. A festa das primícias é uma espécie de agradecimento aos antepassados, assim se acreditava que o consumo destas antes do dia 8 de dezembro “fazia mal.” As civilizações africanas desde os primórdios realizaram festas para de sacralizarem os frutos da terra, ou melhor, para colocarem o presente dos ancestrais num nível que pudesse ser tocado pelos seres humanos, a partir da concepção de que tudo que sai da terra pertence a esta e é tão sagrada quanto a mesma. Nas religiões de matriz africana, as frutas especialmente estão ligadas às Iyabás, pois como estas, são verdadeiros ventres que guardam as sementes. Nos terreiros de candomblé de tradição jeje nagô estes princípios ancestrais ligados à terra, aos rios, às cachoeiras, às matas, ao mar, aos ventos, são representadas como mulheres guerreiras, caçadoras, comerciantes, médicas e artistas. Afirma-se também que elas estão por toda a parte, no céu como a lua e as estrelas, no mar encantada em qualquer peixe, sobre a terra em todos os seres vivos e no ar, movimentando-se como o beija flor, a borboleta, as abelhas ou qualquer pássaro, um de seus símbolos por excelência. De acordo com algumas histórias preservadas nas comunidades terreiros, estão sempre se transformando em pássaros. O poder de transformar-se ou encantar-se é outra característica das Yiabás. Iyemanjá mesmo, a mãe dos orixás encanta-se como qualquer peixe. Ela teria se transformado num rio a fim de vencer uma montanha que se colocou como obstáculo no seu caminho. Oyá também se encanta ora num leopardo, ora num búfalo. E como não lembrar de Oxun, a Iyabá que “vestiu de planta”? E Ewá, a caçadora que tem o poder de ficar invisível. Assim, as Iyabás estão presentes em toda a nossa vida. Elas presidem todos os ritos de passagem, assim elas acompanham desde o nascimento à morte. Até mesmo aquelas sobre as quais pouco se fala como a velha Opaoká, cultuada nas centenárias jaqueiras, Agê Xalunga, a que preside o comércio, Obá , guardiã de todas a mulheres e Nanan, a mãe criadora e principio da transformação. Não obstante estes elementos que apresentamos, o símbolo por excelência das Iyabás mesmo é a terra. Ela é a grande mãe, a que nos sustenta, razão pela qual é saudada como Iyá mim, literalmente minha mãe. De acordo com a tradição ioruba, no principio do mundo, a terra, representada pela mulher foi o único antepassado que acompanhou os dois princípios ancestrais: Oxalá e Ogun. Isso nos leva a crer que para estes grupos as mulheres sempre desempenharam vital importância e sobre elas caíram a responsabilidade de como a terra sustentar o mundo. Como no mito que conta que Nanan ampara o mundo. É ela quem cuida, junta, ao mesmo tempo que separa para que o dia não se encontre com a noite, os planetas não se choquem e assim por diante. Acredita-se que a força da terra esteja presente em todos nós, mas de forma especial nas mulheres, talvez isso explique porque desde cedo as primeiras civilizações para estas compuseram cânticos, ou mesmo as chamaram de música, ou assim que puderam, as transformaram em objeto de adoração, ergueram para elas cultos, ou ainda estabeleceram relações entre estas mulheres e as frutas que como a terra guardam elementos geradores de vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CANDOMBLE E SEXUALIDADE


O tema desta semana será melhor entendido se estendermos a sua compreensão às diferentes representações do corpo que as religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil, cada uma a sua maneira, tomaram emprestadas das religiões tradicionais africanas, pois ao contrário de algumas tradições religiosas, a sexualidade não pode ser vista como algo separado, uma parte do todo, ou alguma coisa que se contrapõe ao Sagrado, mas integrante deste. Certa ocasião presenciei a fala de uma sacerdotisa chamando a atenção para o fato de que a sexualidade está no corpo todo. Ela faz parte da dinâmica da vida. Desta maneira, não podemos a conceber apenas como algo que se relaciona aos órgãos genitais que sem dúvida, depois da cor, foram os primeiros a serem demonizados pelo discurso cristão que inicialmente plantou nos nossos corpos a “maldição de Cam”e posteriormente o “diabo.” Como historicamente, estas falsas teologias já foram desconstruídas e uma vez esclarecido que elas apenas serviram para justificar a escravidão dos povos recém descobertos, sobretudo os africanos, frente aos impérios, ciências, saberes e tecnologias com as quais os colonizadores se depararam, não vamos entrar no mérito dessa questão, embora saibamos que algumas delas ainda sejam evocadas pelos discursos intolerantes de algumas lideranças religiosas que colocam-se veemente contra as chamadas “crenças incompatíveis com a fé cristã”, restringidas às práticas de cultos recém fundados fundamentados em dissidências pessoais de suas lideranças. Aprecio muito o mito que diz que no inicio, Olodumaré chamou Exu, principio da comunicação e primeiro ser dotado de corpo e lhe entregou os órgãos genitais a fim de levá-los à humanidade. Exu chamou então um macaco e passou a experimentá-los nele, a fim de encontrar o melhor lugar para colocá-los. Diz o mito que primeiro Exu colocou as genitálias nos pés, mas logo percebeu que sujavam muito. Assim apressou-se logo e as colocou nas axilas. Porém embaixo dos braços era muito incômodo. Exu viu que não daria certo. Mudou de idéia e as colocou abaixo do nariz, mas logo Exu viu que isso comprometeria o olfato, confundiria os cheiros. Assim, sabiamente Exu os localizou dentro das pernas. Ele havia encontrado o lugar certo, uma espécie de caminho, como ele, entre o mundo dos Antepassados, a terra, Ilé e o “ mundo dos vivos”. É por isso que eles são uma espécie de boca aberta para baixo. É através delas que os nossos antepassados se comunicam e vêem ao mundo. Esse mito é bastante ilustrativo do papel e significado daquilo sobre o qual estamos falando, ao mesmo tempo em que lança desafios para fazermos uma releitura senão sobre o corpo, da sexualidade, assunto que nos últimos anos não resistiu às concepções menos preconceituosas, e desta maneira tem reaparecido na emergência de temas como aborto, família, opção sexual, ética, representação social e questões de gênero. Fato é que quando o tema da sexualidade reaparece nas rodas de conversas, ele surge atravessado de preconceitos. Em linhas gerais, um trabalho sobre a relação entre sexualidade e sagrado ainda está para ser feito e que bom se este ultrapassasse o âmbito das religiões de matriz africana e adentrassem as igrejas cristãs, sobretudo as mais recentes que prometem tratamento e cura de comportamentos considerados desviantes. Talvez tal estudo sirva mesmo para refletir qual a importância do outro como lugar de manifestação do Sagrado. O exercício da sexualidade deve ser visto como momento de encontro ou reencontro com o meu Divino, totalmente diferente que se encontra no outro diante do qual me curvo por não compreendê-lo e ao mesmo tempo para ser preenchido. Desta maneira ela pode ser compreendida como algo mais amplo. Ela está no corpo todo. No toque, no olhar, no convívio. Ela transcende aos encontros repentinos, embora o Divino possa também se fazer presente nestes. Verdade é que a nossa sexualidade deve ser exercitada não tendo em vista um fim, mas para sermos felizes no mundo. Outro tema que precisa ser reconstruído na civilização Ocidental que em alguns momentos históricos privilegiou o horror, a tragédia em detrimento do riso, da alegria. Alguns resultados dessa espécie de distanciamento de nós mesmos, podemos apreciar através de posturas machista e sexistas que empurraram temas como o aborto e união entre pessoas do mesmo sexo para o âmbito religioso, já que a partir do momento em que a ciência recriada no século XIX dessacralizou o corpo, os novos modelos religiosos emergidos desse momento tomou para si a responsabilidade de sustentar certas verdades, frente a emergência dos novos campos de saber. Verdades estas que ainda hoje estamos lutando para devolvê-las ao âmbito das relações a fim de as torná-las mais humanas. Enquanto isso, esperamos que Exu continue experimentando para ver na contemporaneidade, qual o melhor lugar para ser colocado aqueles que mais foram associados ao demônio.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

POVO DE AXE E ELEIÇÕES


Acredito que a maioria das pessoas, como eu, cresceram ouvindo que religião e política são coisas que não se discutem. Tal fala é bem característica do contexto brasileiro onde as relações entre negros e não negros são escondidas o tempo todo, ora através de um silêncio sobre a cor dos primeiros que se dissolve nas questões sociais, ou mesmo pelo chamado racismo cordial que desde cedo determinou lugares e papéis para os negros. Assim, não poucas foram as vezes que ouvimos: ponha-se no seu lugar! Religião e política se discutem si. No caso da primeira, tivemos desde cedo que enfrentar os discursos preconceituosos sobre nós mesmos, sobre a maneira de vermos o Sagrado e nos colocarmos no mundo. Fomos chamados de bruxos, feiticeiras, supersticiosos, ignorantes, primitivos e assim por diante. A partir dos anos setenta, se não bastasse a fala preconceituosa e discriminatória da imprensa no período anterior, amparada pela medicina emergente no século XIX, tivemos que enfrentar o contundente discurso das igrejas eletrônicas que acabavam de chegar reforçando as posturas “anti negro” utilizando a mídia e segmentos do setor empresarial para mais uma vez desconstruir as imagens positivas que havíamos construído sobre nós mesmos, através da demonização de nossos cultos. Vinte anos depois, isso mobilizou o povo de candomblé que cansado de ver seus orixás, vodus, nkices e caboclos demonizados, seus templos invadidos, sem falar de crescentes agressões verbais, a levantar um movimento em torno da chamada intolerância religiosa que até então dentre nós, parecia que só atingia o povo judeu, uma vez que tinham nos ensinado que religião não se discute, já que estávamos integrados no povo brasileiro. Parece-nos que com o movimento contra a intolerância o povo de candomblé, ao menos os que se comprometeram com esta questão, começou a falar sobre religião e sobre as relações entre a sua religião e os outros modelos religiosos. A partir de agora não se tratava mais de reivindicar o reconhecimento do culto como religião, mas garantir o respeito à liberdade religiosa. Que bom que passamos a falar sobre religião. E como não citarmos o fato positivo de termos conseguido um dia para refletir sobre a intolerância religiosa? Salve o 21 de janeiro! O segundo tema não é menos emblemático que o primeiro. Trata-se da política. Esta aqui entendida no sentido mais africano possível: as questões relacionadas à cidade, a todos que fazem parte do egbé, a sociedade, à vida em grupo. Para as comunidades africanas tal conceito desde cedo foi elaborado a partir da concepção de um poder letigimado através da coletividade. E aqui nos separamos da concepção ocidental da criação do estado como um monstro, responsável por domar os desejos dos indivíduos. Embora não fuja a concepção divina do poder, a exemplo do mito quer diz que no inicio chegaram a terra “sete príncipes coroados”, podemos encontrar ao menos em alguns grupos africanos que ajudaram na nossa constituição, concepções como as de asogbá, mogbá, baba egbe e Iyalodê ao lado de outras que dividem com o Rei ou Rainha, funções de estabelecer a integração entre o Sagrado e a coletividade, verdadeira idéia do poder. Os mitos antigos, por exemplo, quando falam sobre as questões que contemporaneamente chamamos de “riscos sociais”, interrogam-se sobre quem errou: se o rei, ou a coletividade. Com estes exemplos, parece que conseguimos demonstrar que desde cedo, africanos e africanas estabeleceram relações entre religião e política. Em outras palavras, teologia e política, assim como teologia e economia, muito antes de Max Weber escrever que existia uma relação entre o protestantismo e o modelo econômico emergente no século XIX conhecido como capitalismo. Dentre as concepções inspiradas pelos mundos africanos, destaca-se a Iyalodê, literalmente a mãe que cuida, se ocupa das coisas da rua, do mundo de fora, das questões relacionadas ao mercado, a política e a saúde. A exemplo de mulheres que estavam a frente de Reinos, como Nzinga em Matamba (Angola), Acotirene, nos quilombos de Palmares, Zeferina no Quilombo do Urubu, Maria Felipa em Itaparica ao lado de tantas outras. Tal fato para nós é bastante desafiador frente a conquista feminina de poder nos representar apenas a partir de 1933, ou seja a 77 anos, a menos de um século. Deste modo não é verdade que as mulheres apenas servem para governar o mundo da casa, ao contrário; porque governam o mundo da casa, são capazes de governar qualquer mundo, basta atentarmos para as “mulheres do partido alto.” Por fim, queremos refletir que ao lado da bancada evangélica ou da bancada celestial, seria bom também para nós termos no Congresso um bobologbô, uma espécie de reunião de notáveis que discutem sobre determinada questão e orienta o governante a tomar uma decisão coletiva. Aos poucos quando começamos a falar de religião e política e assumirmos a relação entre elas, vamos fazendo isso. Enquanto esse fato não se torna realidade, bom mesmo é ficarmos atentos para os programas de governo que nos incluem ou aqueles que nos colocam para fora com a desculpa de que o estado brasileiro é laico e que religião é religião e cultura é cultura, outro tema que enfrentaremos futuramente. Afinal, os mesmos que nos ensinaram que religião e política não se discutem, a mesma elite que escondeu os feitos das mulheres do partido alto, dizendo que elas mal sabiam governar as suas cozinhas, nunca perderam estas questões de vista. O resultado, porém, está ai, crescemos alimentados de seus sonhos, esperanças e desejos de seguir em frente.

sábado, 9 de outubro de 2010

UMA FESTA PARA DUAS MÃES


No mês de setembro, duas comunidades terreiros reuniram-se para celebrar a vida de suas Iyalorixás: Hilda Dias dos Santos, Mãe Hilda Jitolu e Regina Sowzer, Mãe Regina Bangboxë. A primeira falecida no dia 19 de setembro de 2009 e a segunda no dia 25 de setembro do ano passado. As duas, mulheres negras, marcaram as suas comunidades com histórias de vida diferentes e alcançaram prestígio pela sua determinação e compromisso assumido com o mundo através da entrega ao culto aos orixás. Mãe Hilda, inspirou na década de 70 a fundação do Bloco Ilê Aiyê atualmente um dos ícones no cenário internacional de luta e combate ao racismo, não somente dando orientação espiritual num momento em que se negava o “poder revolucionário” da religião do negro, mas o acompanhando e orientando as suas maiores decisões. Ao partir para o mundo do mistério com 86 anos, Mãe Hilda deixou uma escola com mais de 320 crianças. Mãe Regina Bangboxe chegou ao Rio de Janeiro na década de 50, descendente consangüínea direta da família Bangboxe, Mãe Regina de Yemanjá ao partir para o mundo do awo (segredo) com mais de 90 anos deixou uma longa família consangüínea e religiosa em Santa Cruz da Serra na Baixada Fluminense. A festa dedicada a estas duas sacerdotisas chamada axexe de um ano visa, na verdade, colocar os vivos diante do mundo que os olhos não enxergam a fim de que estes entendam o verdadeiro valor e significado da vida. Venho insistindo que tal celebração ocasião em que se come e bebe, se celebra, comemora os nossos pais e mães durante uma semana, serve muito mais para os vivos do que para os que partiram. Aos primeiros cabem fazer memória dos segundos para as próximas gerações e aos segundos cabe dançar com os vivos certas cantigas que lhe são dedicadas, motivo pelo qual tal ritual é cercado de segredo. Tudo acontece à semelhança de um mercado onde se troca bens o tempo todo. No ritual do axexe, o dinheiro é trocado o tempo todo diante da morte, representada pelos ente queridos ali adorados. Idéia semelhante aparece na Grécia, Roma, Egito e em outras civilizações antigas onde moedas eram colocadas ora junto ao corpo, ora na boca dos falecidos a fim de pagar o transporte ao Deus Greco Romano Caronte ou a outro que conduzia os mortos até o mundo do mistério. Verdade é que o axexe é a maior afirmação de nossa ancestralidade. Ele não somente ajuda estreitar os laços com os antepassados mais também com a comunidade que durante uma semana reza unida afirmando a sua identidade, identidades negras reinventadas na diáspora forçada dos africanos e africanos pelo mundo. Por outro lado, o axexe é o cumprimento de uma promessa feita por Olodumare a Oyá diante da reverência a seu pai, o velho caçador por ocasião de sua morte. Neste ritual confiamos a Oyá aqueles que nasceram para a outra vida, a fim de que ela os conduza e tome conta deles. É também momento da afirmação de que nossos pais e mães continuarão conosco, nos orientando e nos conduzindo, afinal “pais e mães não descansam enquanto possuem filhos na terra”. Isso significa que eles estarão sempre conosco. Assim confiamos que passado um ano da partida desta Iyalorixás, elas estão presentes nas nossas lutas, no nosso dia a dia, nos nossos sonhos, nas nossas famílias, ajudando-nos a realizar os nossos projetos, dando-nos esperança quando algo parece terminado, iniciando mais uma etapa, quando algo parece que chegou ao fim, transformando as nossas lágrimas de saudade em alegria, o desespero em calma, o desassossego em paz. Mãe Hilda Jitolu como seu ancestral, continuará brilhando no céu como o sol e Iya Regina, como uma estrela que transforma qualquer escuridão na maior claridade, ou simplesmente como uma fonte de onde brota todas as riquezas que como Yemanjá corre como água para todos os cantos da terra.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

ODUN ADORIN DE PAI AIR DE OXOGUIÃ

No dia 20 de setembro deste ano completou 70 anos de vida o Babalorixá Air José Sousa de Jesus, de quem recebeu o nome carinhoso de sua Iyalorixá e tia consangüínea Caetana Sowzer, de Aizinho. Pai Air como é conhecido pelas pessoas é filho de Tertuliana Sousa de Jesus e neto de Felisberto Sowzer, último Babalawo que a cidade de Salvador teve notícias. Benzinho como era conhecido era homem letrado, falava fluentemente inglês e nas suas viagens feitas, sobretudo ao Rio de Janeiro iniciou várias pessoas. Todavia, a sua maior contribuição para as religiões de matriz africana no Brasil foi a sistematização do método advinhatório chamado Bara ou Merindilogum. Como filho de Ogun, Benzinho reuniu dezesseis caminhos chamados Odus com suas respectivas histórias e preparou cadernos posteriormente divulgados ora desconhecendo ou ignorando a sua participação nos mesmos. Felizberto Souwzer era filho de Julia Martins Andrade, tia Júlia, filha consangüínea de Rodolpho Martins Andrade, Bangboxe Obiticô, o jovem trazido por uma das sacerdotisas que estava à frente do Candomblé do Engenho Velho para ajudar a sistematização do culto a Xangô. Tio Bangboxe participou da iniciação de Eugênia Anna dos Santos, mãe Aninha que em 1910 criou o Ilê Axe Opo Afonjá, hoje centenário. Acredita-se também que o Tio Bangboxe também esteve presente na ocasião da estruturação do Sítio do Pai Adão em Pernambuco. Pai Air é assim, herdeiro da tradição de sua família, da extensa família de Xangô entrada no Brasil com os primeiros yorubás chegados entre final do século XVIII e meados do século XIX vindos do reino de Oyó recém destruído pelos povos vizinhos. Pai Air desde cedo sentiu essa responsabilidade. Iniciado ainda quando criança por três mulheres de Oxun, fato que lembra com orgulho, começou desde cedo acompanhar à sua tia e Iyalorixá, Mãe Caetana. Em 1961 no alto do Caxundé, atual bairro da Boca do Rio, sobre uma duna, quando na região havia apenas poucas casas de taipa cobertas com folhas de coqueiro ou de zinco,Pai Air com apenas 21 anos de idade concretizou um sonho que completará no próximo ano, cinqüenta anos: o Ilê Odô Ogê. Uma casa dedicada a Oxoguian, ancestral a quem foi consagrado, à Oxun e a Xangô. De patrimônio arquitetônico, artístico, histórico e imaterial inquestionável, o Terreiro Pilão de Prata, como é conhecido, foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) no ano de 2004. Além de um acervo bibliográfico sobre as religiões de matriz africana, a casa com recursos próprios mantém um Memorial e instalações prontas para serem implantadas oficinas voltadas à comunidade. Foi o primeiro terreiro instalar o bosque sagrado, um espaço onde se cultiva algumas plantas rituais que estão em estágio de desaparecimento. Considerado sempre a frente de seu tempo Pai Air é sempre reportado pelo seu bom gosto, requinte, estilo, amor e carinho com que trata os Orixás que sempre quando se refere, faz questão de lembrar: “os Orixás são a minha vida.” Pai Air é um homem extremamente metódico, acompanhá-lo exige disciplina. É também um homem de poucas palavras, de passos firmes, mas silenciosos, razão pela qual está sempre surpreendendo, até quando se coloca alguém para vigiá-lo. Esse é um dos principais motivos que dificilmente seus filhos conseguem organizar festas surpresas. Pai Air, não obstante o seu significado para as religiões de matriz africana no Brasil é muito simples. Varias vezes ouvi afirmar: se a pessoa chega até aqui ela não pode sair sem ouvir uma palavra. Quanto a outras tradições religiosas, Pai Air sempre lembra: não conheço candomblé, o que sei é aquilo que Mãe Caetana me ensinou. Com os ensinamentos de sua Mãe de quem nunca se separou, Pai Air segue dizendo: “Orixá para mim é a água que eu bebo, o ar que eu respiro e os olhos que eu enxergo.” Oxun para mim é tudo. Ela é a minha maior riqueza. Este ano, as comemorações do seu aniversário foram também modestas. Pai Air recebeu telefonemas e agradeceu aos orixás pela extensa família de santo e amigos que conseguiu acumular durante estes anos, anos de todos os dias dedicados aos Orixás. Isso porque ele sabe que a cada ano que se dobra, a responsabilidade aumenta, agora ele cuida do mundo como Oxoguian e Oxun que toma conta de nós como a galinha protege os pintinhos debaixo de suas asas. E para que melhor presente do que ter o mundo todo desejando que Iyemanjá transforme os anos que virão em algo incontável como as areias da praia? Acredito que esse é o desejo de todos e todas que compõem as extensas famílias do terreiro do Luis Anselmo fundado por Tia Júlia atualmente sobre a liderança de Tia Irenea Sowzer; do candomblé do Engenho Velho; da casa de Mãe Caetana, chamada Lajuomim e do terreiro Pilão de Prata, casa fundada sobre a proteção do Orixá que desde os primórdios tomou para si a responsabilidade de cuidar do mundo.

Quem sou eu

Salvador, Bahia, Brazil
Antropólogo, Doutor em Ciênciais Sociais pela PUC-SP e Pós Doutor em Antropologia pela UNESP. Membro do Centro Atabaque de Cultura Negra e Teologia, Grupo de reflexão inter-disciplinar sobre Teologia e cultura fundado no início dos anos 90 em São Paulo.Professor da Escola de Nutrição da UFBA, autor de vários livros na área de Antropologia das Populações Afro-Brasileiras.